sexta-feira, 26 de junho de 2009

AMOR ABSOLUTO - UMA HISTÓRIA REAL

Na cidade de Petrópolis (Rio de Janeiro) um cartaz do tamanho de meia página de jornal está espalhado por alguns lugares públicos. Mostra a fotografia de Tatiana, 28 anos, casada e mãe de dois filhos; um deles, ainda bebê, está ao seu lado. Tatiana está com leucemia e procura doadores de medula óssea para continuar viva. Ela é ruiva, bonita, tem o rosto magro e abatido. Tatiana sorri.
Logo abaixo há uma outra foto; o seu marido e o outro filho - de aproximadamente sete anos - seguram uma faixa onde está escrito: ''Troco qualquer órgão do meu corpo por medula óssea compatível à de minha esposa. Só não posso trocar o meu coração, porque pertence a ela". Ambos estão sorrindo.
O casal pode ser contatado pelos telefones (24) 8811-1720 e (21) 2242-8100

sábado, 13 de junho de 2009

PAIXÃO VAMPIRO

Quando você estiver dormindo
no morno ninho do leito
penetrarei pela janela de seu quarto
num raio de luz insuspeito

Sobrevoarei seu corpo todo
lentamente
no vaivém vaga-lume
feito barco em busca do porto

Feito ser demente
ambulante
na névoa da noite
em becos e vielas tenebrosas

Cuidadosamente
como faz o vampiro
afastarei o cabelo
ao redor do seu ouvido

Para murmurar
na cadência
do mais puro encantamento
a serenata da essência
do completo amor sem fim


















quinta-feira, 11 de junho de 2009

BILHETE

Se não houver estrelas, se a noite for escura e os gatos não estiverem
percorrendo muros e telhados - silenciosas sombras - não me
telefone, por favor. Gosto de brilhos noturnos, dos felinos
em seus passeios macios e amores discretos - sempre
no alto das casas, com miados violinos entremeados de oboés.

Nas noites de lua reluzente, ouço Sarah Vaughan cantando
I get a kick out of you, e bebo champanhe abraçado
à minha amante; contemplamos o horizonte e nos beijamos
na varanda enluarada; Romeu e Julieta tropicais. Além de nós,
não há mais nada. Assim, não bata à minha porta, jamais.

Em meio a relâmpagos e explosões de trovão no céu noturno,
arrumo livros nas prateleiras; minhas doces lembranças, meus desencantos,
encontros e desencontros. Guardo na gaveta fotografias de pessoas queridas, outras nem tanto. Organizo cartas escritas para não sei quem, poemas que ninguém leu. Empilho num canto roupas usadas - em festas e solenes casamentos. Depois, apago todas as luzes do apartamento, me deito e mergulho em olímpico salto no meu mais profundo dentro. Nessas noites, não me procure; busque um bar repleto de música porque o amanhecer será suave na meiga brisa do mar. Então, nos encontraremos na esquina daquela rua onde o sol afasta a lua.




segunda-feira, 8 de junho de 2009

OLHAR INFINITO

Sobre nós dois, desce lentamente - suave cortina - uma neblina violácea
interposta verticalmente entre a mesa do bar
e o céu noturno, vazio de sons. Olhamo-nos em igual silêncio
aquele estranho silêncio
do ronco rítmico do mar.

E nossas mãos
se tocam levemente em torno de taças, garrafa de vinho
e uma rolha caída sobre a branca toalha de linho.
Olhamo-nos.

Há uma certa alvura
própria da loucura
em nossa maneira de olhar.
Estamos num bar, mas poderíamos estar num mosteiro no Sri Lanka
meditando sob mantos alaranjados, pernas cruzadas
olhos fechados.

Mas nos olhamos em jogos de espelho
a multiplicar infinitamente o próprio reflexo, pouco importando o sentido
o nexo
da rolha tombada sobre a alvura
porque há uma certa loucura
em nossa maneira de olhar

Nossas mãos
se tocam levemente.



sexta-feira, 15 de maio de 2009

PISANDO LEVE

Levo num cesto
Equilibrado sobre a cabeça
Meus alegres sentimentos
Retratos de muitos ontens

E piso leve
Como quem dança
Sobre as pedras
Das praias
O limo
Nas serras
As folhas em verde manto
No silencioso chão da floresta

Estou sempre
Profundamente leve
Flutuando
Em doce encanto

Também carrego
Sobre o peito
Um colar de conchas
Coloridas
Achadas numa esquina
São tão lindas...

Conheço os esconderijos
Onde dormem e acordam
O sol
A lua

Os altos recantos
Das estrelas
Casas dos deuses
Moradas dos blues

O canto
Do pássaro
E seu milagroso
Ninho

Sob meu manto
Tecido em poeira
Piso leve
Como quem dança
Over the rainbow















oberto pelo meu manto
Tecido em poeira





quarta-feira, 13 de maio de 2009

APARENTEMENTE, AU REVOIR

Caminhamos nós dois
A première vue il semble
Na cadência do mesmo andar

Somos ambos uma só festa
E mergulhamos felizes
Nas ondas
So blues
Do mar de sempre

A première vue il semble
Nossos lábios formam
O mesmo beijo
Docemente

Sonhamos
E acordamos em igual momento
Entre ternos olhares
Meigos sentimentos

A première vue il semble
Somos uma só sede
Na taça que nos sacia

A première vue il semble
Sorrimos deslumbrados
Ante o clarão
Da solitária estrela
Cadente

Até que um dia
Num susto
Em desalento

Um de nós dirá
Ce n'est pas possible
...au revoir

E tudo passará
Rápido e reluzente
No rastro
Da estrela cadente
















domingo, 10 de maio de 2009

SAX CIGANO

E vinha desde longe
Descendo a ladeira noturna
Em doce gemido entre folhas
O som de um sax dourado

Apenas isso - quase um lamento
Prevendo o adeus naquela noite

Um adeus que se viesse em água
Seria um grande dilúvio
Numa única lágrima

As mãos iriam se separar
Como as dos que se afogam
Em gesto de nunca mais

É assim
Em contrafeito sorriso
Que as pessoas se vão

E guardam o choro incontido
E a dor das mãos apartadas
Para quando estão inteiramente sós
Na amplidão da cama incompleta

E feito lâmina fria e reta
Desceu a ladeira o som de sax
Em dourada serenata cigana

Para depois silenciar
Na insondável escuridão
Como tudo que chega ao fim