E vinha caminhando ao sol
[era verão
mas havia neve
em seus ombros]
sobre sua sombra
no centro de sua alma
solto balão rente ao chão
E notou o sorriso
dos cães
a pressa das pessoas
rumo a lugares distantes
muito distantes
onde não havia cães sorrindo
nem ninho de pássaros
ocultos
em folhagem de milagres
E no céu o sol e a lua
salpicados de estrelas
brilhavam juntos
pois era noite
mas também era dia
E sobre um muro
revestido de tempo e musgo
um gato lhe disse
em rima de silêncios
uma poesia
que somente ele entenderia
E suas roupas foram se desfiando
esvoaçando fiapos
sumiam
sumiam
sumiam
E o ressoar de seus passos
transformaram-se em melodia
seu corpo diluia-se
em duo
cello e violino
E seu coração dividiu-se
em duas gotas sobre a face
molhando o sorriso esculpido
em sinfônica alegria
E subiu a escadaria
de nuvens e pássaros
cães e gatos em procissão
sumiu
sumiu
sumiu
no areal luminoso
[era verão
mas havia neve
em seus ombros]
sábado, 29 de agosto de 2009
sexta-feira, 31 de julho de 2009
A ESFERA (VISÕES)
No gume agudo
do som violino
me solto mudo
Anestesiado
Sou abelha atômica
asas vulcânicas
vertiginoso vôo
invertido
Rumo a um poço
profundo
sem fundo
[do lado oposto
ao fim do mundo]
Vejo na mata
uma clareira
circular
Exatamente
no centro
do círculo
uma esfera
Espera
Feita de mil
camadas
sobrepostas
em misteriosa
simetria
Perfeita maestria
Lá
no centro
do círculo
somente
em eterno momento
um certo
silêncio
Aquele silêncio
da lonjura
do deserto
da loucura
Ao redor
da esfera
apenas o peso
de sua própria espera
Mas não só
Em frenética
coreografia
dança um gnomo
prateado
"O inferno é gelado
gelado e eterno
é o inferno"
canta rodando
em dança concêntrica
Abro lentamente
com paciência demente
uma a uma
mil camadas
Quanto mais profundas
mais inexistentes
Nem quentes
nem frias
Na última
salta súbito
do dentro
do núcleo
um fluxo de sono
magnético
absoluto
Envolve rápido
zás
minha mente
engole minha alma
no casulo
E leio
escrito em pergaminho
saído da espuma
da gosma
do canto gnomo
a palavra bailarina:
Samsara
do som violino
me solto mudo
Anestesiado
Sou abelha atômica
asas vulcânicas
vertiginoso vôo
invertido
Rumo a um poço
profundo
sem fundo
[do lado oposto
ao fim do mundo]
Vejo na mata
uma clareira
circular
Exatamente
no centro
do círculo
uma esfera
Espera
Feita de mil
camadas
sobrepostas
em misteriosa
simetria
Perfeita maestria
Lá
no centro
do círculo
somente
em eterno momento
um certo
silêncio
Aquele silêncio
da lonjura
do deserto
da loucura
Ao redor
da esfera
apenas o peso
de sua própria espera
Mas não só
Em frenética
coreografia
dança um gnomo
prateado
"O inferno é gelado
gelado e eterno
é o inferno"
canta rodando
em dança concêntrica
Abro lentamente
com paciência demente
uma a uma
mil camadas
Quanto mais profundas
mais inexistentes
Nem quentes
nem frias
Na última
salta súbito
do dentro
do núcleo
um fluxo de sono
magnético
absoluto
Envolve rápido
zás
minha mente
engole minha alma
no casulo
E leio
escrito em pergaminho
saído da espuma
da gosma
do canto gnomo
a palavra bailarina:
Samsara
terça-feira, 30 de junho de 2009
MOONWALK DEMEROL
na escuridão do meu quarto
vi pela janela aberta
à imensidão do mar da noite
[em clarão entre estrelas diamantes]
Michael Jackson deslisando
num relâmpago
vi pela janela aberta
à imensidão do mar da noite
[em clarão entre estrelas diamantes]
Michael Jackson deslisando
num relâmpago
manto
bordado de pirilâmpagos
leve pluma
bailava cantando
Children's Corner
[Claude Debussy ao piano]
Demerol! gemia sua alma
Demerol! Demerol! suplicava
no infinito vazio espacial
suavemente elétrico
pop moon sentimentos
[catedral submersa]
contemplava a Terra
never
Neverland
never again
Demerol! Demerol!
vi subir no seu rumo
numa névoa fosforescente
de Adriana Calcanhotto
meiga prece
"Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem"
Demerol! Demerol!
Michael Jackson sapateava
passos Charles Chaplin
o corpo se contorcia
rodopiava
subia
descia
embriagados jazz and blues
no céu melodia
e serenatas de Mozart
Demerol! Demerol!
Harlem
Morro Dona Marta
Ladeira do Pelourinho
Los Angeles
"They don't care about us"
Demerol! Demerol!
Peter Pan ao lado
brincava enigmas
soprava flauta
havia canto de crianças
grande encanto
Michael Jackson
assobiava "Black or white"
rock
funk
soul
Demerol! Demerol!
quero colocar Michael Jackson
no meu colo
para ninar o menino
que os duros adultos não entenderam
vou espantar seus medos
pesadelos
para ele dormir sereno
e cantarei baixinho
junto aos seus ouvidos
Lullaby of Broadway
"This is it"
desceu a cortina final
that is all
Demerol! Demerol!
sexta-feira, 26 de junho de 2009
AMOR ABSOLUTO - UMA HISTÓRIA REAL
Na cidade de Petrópolis (Rio de Janeiro) um cartaz do tamanho de meia página de jornal está espalhado por alguns lugares públicos. Mostra a fotografia de Tatiana, 28 anos, casada e mãe de dois filhos; um deles, ainda bebê, está ao seu lado. Tatiana está com leucemia e procura doadores de medula óssea para continuar viva. Ela é ruiva, bonita, tem o rosto magro e abatido. Tatiana sorri.
Logo abaixo há uma outra foto; o seu marido e o outro filho - de aproximadamente sete anos - seguram uma faixa onde está escrito: ''Troco qualquer órgão do meu corpo por medula óssea compatível à de minha esposa. Só não posso trocar o meu coração, porque pertence a ela". Ambos estão sorrindo.
O casal pode ser contatado pelos telefones (24) 8811-1720 e (21) 2242-8100
sábado, 13 de junho de 2009
PAIXÃO VAMPIRO
Quando você estiver dormindo
no morno ninho do leito
penetrarei pela janela de seu quarto
num raio de luz insuspeito
Sobrevoarei seu corpo todo
lentamente
no vaivém vaga-lume
feito barco em busca do porto
Feito ser demente
ambulante
na névoa da noite
em becos e vielas tenebrosas
Cuidadosamente
como faz o vampiro
afastarei o cabelo
ao redor do seu ouvido
Para murmurar
na cadência
no morno ninho do leito
penetrarei pela janela de seu quarto
num raio de luz insuspeito
Sobrevoarei seu corpo todo
lentamente
no vaivém vaga-lume
feito barco em busca do porto
Feito ser demente
ambulante
na névoa da noite
em becos e vielas tenebrosas
Cuidadosamente
como faz o vampiro
afastarei o cabelo
ao redor do seu ouvido
Para murmurar
na cadência
do mais puro encantamento
a serenata da essência
do completo amor sem fim
quinta-feira, 11 de junho de 2009
BILHETE
Se não houver estrelas, se a noite for escura e os gatos não estiverem
percorrendo muros e telhados - silenciosas sombras - não me
telefone, por favor. Gosto de brilhos noturnos, dos felinos
em seus passeios macios e amores discretos - sempre
no alto das casas, com miados violinos entremeados de oboés.
Nas noites de lua reluzente, ouço Sarah Vaughan cantando
I get a kick out of you, e bebo champanhe abraçado
à minha amante; contemplamos o horizonte e nos beijamos
na varanda enluarada; Romeu e Julieta tropicais. Além de nós,
não há mais nada. Assim, não bata à minha porta, jamais.
Em meio a relâmpagos e explosões de trovão no céu noturno,
arrumo livros nas prateleiras; minhas doces lembranças, meus desencantos,
encontros e desencontros. Guardo na gaveta fotografias de pessoas queridas, outras nem tanto. Organizo cartas escritas para não sei quem, poemas que ninguém leu. Empilho num canto roupas usadas - em festas e solenes casamentos. Depois, apago todas as luzes do apartamento, me deito e mergulho em olímpico salto no meu mais profundo dentro. Nessas noites, não me procure; busque um bar repleto de música porque o amanhecer será suave na meiga brisa do mar. Então, nos encontraremos na esquina daquela rua onde o sol afasta a lua.
percorrendo muros e telhados - silenciosas sombras - não me
telefone, por favor. Gosto de brilhos noturnos, dos felinos
em seus passeios macios e amores discretos - sempre
no alto das casas, com miados violinos entremeados de oboés.
Nas noites de lua reluzente, ouço Sarah Vaughan cantando
I get a kick out of you, e bebo champanhe abraçado
à minha amante; contemplamos o horizonte e nos beijamos
na varanda enluarada; Romeu e Julieta tropicais. Além de nós,
não há mais nada. Assim, não bata à minha porta, jamais.
Em meio a relâmpagos e explosões de trovão no céu noturno,
arrumo livros nas prateleiras; minhas doces lembranças, meus desencantos,
encontros e desencontros. Guardo na gaveta fotografias de pessoas queridas, outras nem tanto. Organizo cartas escritas para não sei quem, poemas que ninguém leu. Empilho num canto roupas usadas - em festas e solenes casamentos. Depois, apago todas as luzes do apartamento, me deito e mergulho em olímpico salto no meu mais profundo dentro. Nessas noites, não me procure; busque um bar repleto de música porque o amanhecer será suave na meiga brisa do mar. Então, nos encontraremos na esquina daquela rua onde o sol afasta a lua.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
OLHAR INFINITO
Sobre nós dois, desce lentamente - suave cortina - uma neblina violácea
interposta verticalmente entre a mesa do bar
e o céu noturno, vazio de sons. Olhamo-nos em igual silêncio
aquele estranho silêncio
do ronco rítmico do mar.
E nossas mãos
se tocam levemente em torno de taças, garrafa de vinho
e uma rolha caída sobre a branca toalha de linho.
Olhamo-nos.
Há uma certa alvura
própria da loucura
em nossa maneira de olhar.
Estamos num bar, mas poderíamos estar num mosteiro no Sri Lanka
meditando sob mantos alaranjados, pernas cruzadas
olhos fechados.
Mas nos olhamos em jogos de espelho
a multiplicar infinitamente o próprio reflexo, pouco importando o sentido
o nexo
da rolha tombada sobre a alvura
porque há uma certa loucura
em nossa maneira de olhar
Nossas mãos
se tocam levemente.
interposta verticalmente entre a mesa do bar
e o céu noturno, vazio de sons. Olhamo-nos em igual silêncio
aquele estranho silêncio
do ronco rítmico do mar.
E nossas mãos
se tocam levemente em torno de taças, garrafa de vinho
e uma rolha caída sobre a branca toalha de linho.
Olhamo-nos.
Há uma certa alvura
própria da loucura
em nossa maneira de olhar.
Estamos num bar, mas poderíamos estar num mosteiro no Sri Lanka
meditando sob mantos alaranjados, pernas cruzadas
olhos fechados.
Mas nos olhamos em jogos de espelho
a multiplicar infinitamente o próprio reflexo, pouco importando o sentido
o nexo
da rolha tombada sobre a alvura
porque há uma certa loucura
em nossa maneira de olhar
Nossas mãos
se tocam levemente.
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