No hemisfério sul de nossa terra
existe um tipo relativamente
comum de pássaro migratório
Eles se reproduzem
com tanta rapidez
que apenas um truque
da natureza
nos livra de um pesadelo
A cada ano, em bando
eles escurecem o céu
da África Ocidental
onde se reúnem
para seu passeio
sobre o Atlântico
Suspeita-se
que no meio
do oceano
exatamente ali,
onde segundo
os geólogos
há milhões de anos
a África se separou
da América do Sul,
esses pássaros
começam a girar
em círculos
Procuram sua terra
onde ela
não existe mais
Seu instinto
sobrecarregado
por milhões de anos
os conduz
à morte
Apenas os insensíveis
alcançam o continente
(Poema de Rebecca Horn,
artista plástica alemã.
Tradução:
Leila Danziger)
quarta-feira, 4 de maio de 2011
domingo, 1 de agosto de 2010
ÚLTIMA GARÇA
alva asa de lua
deslisa a garça
no azul
sobre o mar
de norte a sul
tudo é azul
tudo
exceto a suave graça
da solitária garça
a navegar o silêncio
de sua total brancura
aquela brancura das virgens
docemente impuras
aquela brancura das flores
da espuma
da areia
dos sonhos
aquela alvura do primeiro dente
do olhar vazio
redondo
que nos contempla o demente
sempre alva e levemente
eis que a garça voltei no ar
um acrobático 8
e
bailarina
pousa sobre uma pedra
sua alada pluma
imóvel, um gato dorme ao sol
serenos estão as águas
as folhas das amendoeiras
os ventos
parados estão
os relógios
pois não há mais pressa
nada se move
tudo cessa
ao longe alguém cantarola:
"...take me to the moon
and let me play among the stars..."
[e foi assim que morri]
deslisa a garça
no azul
sobre o mar
de norte a sul
tudo é azul
tudo
exceto a suave graça
da solitária garça
a navegar o silêncio
de sua total brancura
aquela brancura das virgens
docemente impuras
aquela brancura das flores
da espuma
da areia
dos sonhos
aquela alvura do primeiro dente
do olhar vazio
redondo
que nos contempla o demente
sempre alva e levemente
eis que a garça voltei no ar
um acrobático 8
e
bailarina
pousa sobre uma pedra
sua alada pluma
imóvel, um gato dorme ao sol
serenos estão as águas
as folhas das amendoeiras
os ventos
parados estão
os relógios
pois não há mais pressa
nada se move
tudo cessa
ao longe alguém cantarola:
"...take me to the moon
and let me play among the stars..."
[e foi assim que morri]
segunda-feira, 7 de junho de 2010
VOLTEI?
O inverno se aproxima
volto
envolto em fiapos de nuvens
aquelas nuvens invisíveis
que os andarilhos carregam
na alma
Volto
mas será um dia
parti
ou apenas adormeci?
volto
envolto em fiapos de nuvens
aquelas nuvens invisíveis
que os andarilhos carregam
na alma
Volto
mas será um dia
parti
ou apenas adormeci?
domingo, 27 de setembro de 2009
BAILARINO D'AREIA
A vida nos une e nos separa
Num belo e fatal
Frio
Movimento de ondas
De mar
Como, digam-me
Como sorrir
E chorar
Alternadamente?
No rítimo vaivém
De águas ora doces
Outras vezes salgadas
Será o náufrago
Isolado numa ilha
Abençoado pela sorte
De viver para sempre
Além da morte
Sem encontros
Nem desencontros?
Inseparável de sua sombra
Leal companheira
E vice-versa
Como a estrela
É sua própria luz
Dias de sol
Noites de luar
O embalo da música
Soprada pelo mar
Orquestra a dança
Do bailarino d'areia
O corpo
Abraçado
Em seu próprio manto
Sem nenhum encontro
Mas distante
Muito distante
No longe oceânico
De qualquer desencontro
Num belo e fatal
Frio
Movimento de ondas
De mar
Como, digam-me
Como sorrir
E chorar
Alternadamente?
No rítimo vaivém
De águas ora doces
Outras vezes salgadas
Será o náufrago
Isolado numa ilha
Abençoado pela sorte
De viver para sempre
Além da morte
Sem encontros
Nem desencontros?
Inseparável de sua sombra
Leal companheira
E vice-versa
Como a estrela
É sua própria luz
Dias de sol
Noites de luar
O embalo da música
Soprada pelo mar
Orquestra a dança
Do bailarino d'areia
O corpo
Abraçado
Em seu próprio manto
Sem nenhum encontro
Mas distante
Muito distante
No longe oceânico
De qualquer desencontro
domingo, 6 de setembro de 2009
VELEIRO ALADO
Em veleiro alado
a pairar suavemente
navegaremos pelo espaço
pelos mistérios do tempo
Apenas nós dois
assim
ao vento
Nas lunetas
nossos corpos suspensos
no ar
A paixão
o abraço
beijos
ao luar
Flutuaremos
entre cores
de aurora boreal
No veleiro alado
lá em cima
[de onde chovem
todos os sonhos]
nos amaremos
em movimento lânguido
lento
Voaremos alto
acima dos fins
E ao som difuso
de clarineta
nos ofereceremos
na palma das mãos
faiscantes lantejoulas
Apenas nós dois
assim
ao vento
a pairar suavemente
navegaremos pelo espaço
pelos mistérios do tempo
Apenas nós dois
assim
ao vento
Nas lunetas
nossos corpos suspensos
no ar
A paixão
o abraço
beijos
ao luar
Flutuaremos
entre cores
de aurora boreal
No veleiro alado
lá em cima
[de onde chovem
todos os sonhos]
nos amaremos
em movimento lânguido
lento
Voaremos alto
acima dos fins
E ao som difuso
de clarineta
nos ofereceremos
na palma das mãos
faiscantes lantejoulas
Apenas nós dois
assim
ao vento
sábado, 29 de agosto de 2009
PASSEIO
E vinha caminhando ao sol
[era verão
mas havia neve
em seus ombros]
sobre sua sombra
no centro de sua alma
solto balão rente ao chão
E notou o sorriso
dos cães
a pressa das pessoas
rumo a lugares distantes
muito distantes
onde não havia cães sorrindo
nem ninho de pássaros
ocultos
em folhagem de milagres
E no céu o sol e a lua
salpicados de estrelas
brilhavam juntos
pois era noite
mas também era dia
E sobre um muro
revestido de tempo e musgo
um gato lhe disse
em rima de silêncios
uma poesia
que somente ele entenderia
E suas roupas foram se desfiando
esvoaçando fiapos
sumiam
sumiam
sumiam
E o ressoar de seus passos
transformaram-se em melodia
seu corpo diluia-se
em duo
cello e violino
E seu coração dividiu-se
em duas gotas sobre a face
molhando o sorriso esculpido
em sinfônica alegria
E subiu a escadaria
de nuvens e pássaros
cães e gatos em procissão
sumiu
sumiu
sumiu
no areal luminoso
[era verão
mas havia neve
em seus ombros]
[era verão
mas havia neve
em seus ombros]
sobre sua sombra
no centro de sua alma
solto balão rente ao chão
E notou o sorriso
dos cães
a pressa das pessoas
rumo a lugares distantes
muito distantes
onde não havia cães sorrindo
nem ninho de pássaros
ocultos
em folhagem de milagres
E no céu o sol e a lua
salpicados de estrelas
brilhavam juntos
pois era noite
mas também era dia
E sobre um muro
revestido de tempo e musgo
um gato lhe disse
em rima de silêncios
uma poesia
que somente ele entenderia
E suas roupas foram se desfiando
esvoaçando fiapos
sumiam
sumiam
sumiam
E o ressoar de seus passos
transformaram-se em melodia
seu corpo diluia-se
em duo
cello e violino
E seu coração dividiu-se
em duas gotas sobre a face
molhando o sorriso esculpido
em sinfônica alegria
E subiu a escadaria
de nuvens e pássaros
cães e gatos em procissão
sumiu
sumiu
sumiu
no areal luminoso
[era verão
mas havia neve
em seus ombros]
sexta-feira, 31 de julho de 2009
A ESFERA (VISÕES)
No gume agudo
do som violino
me solto mudo
Anestesiado
Sou abelha atômica
asas vulcânicas
vertiginoso vôo
invertido
Rumo a um poço
profundo
sem fundo
[do lado oposto
ao fim do mundo]
Vejo na mata
uma clareira
circular
Exatamente
no centro
do círculo
uma esfera
Espera
Feita de mil
camadas
sobrepostas
em misteriosa
simetria
Perfeita maestria
Lá
no centro
do círculo
somente
em eterno momento
um certo
silêncio
Aquele silêncio
da lonjura
do deserto
da loucura
Ao redor
da esfera
apenas o peso
de sua própria espera
Mas não só
Em frenética
coreografia
dança um gnomo
prateado
"O inferno é gelado
gelado e eterno
é o inferno"
canta rodando
em dança concêntrica
Abro lentamente
com paciência demente
uma a uma
mil camadas
Quanto mais profundas
mais inexistentes
Nem quentes
nem frias
Na última
salta súbito
do dentro
do núcleo
um fluxo de sono
magnético
absoluto
Envolve rápido
zás
minha mente
engole minha alma
no casulo
E leio
escrito em pergaminho
saído da espuma
da gosma
do canto gnomo
a palavra bailarina:
Samsara
do som violino
me solto mudo
Anestesiado
Sou abelha atômica
asas vulcânicas
vertiginoso vôo
invertido
Rumo a um poço
profundo
sem fundo
[do lado oposto
ao fim do mundo]
Vejo na mata
uma clareira
circular
Exatamente
no centro
do círculo
uma esfera
Espera
Feita de mil
camadas
sobrepostas
em misteriosa
simetria
Perfeita maestria
Lá
no centro
do círculo
somente
em eterno momento
um certo
silêncio
Aquele silêncio
da lonjura
do deserto
da loucura
Ao redor
da esfera
apenas o peso
de sua própria espera
Mas não só
Em frenética
coreografia
dança um gnomo
prateado
"O inferno é gelado
gelado e eterno
é o inferno"
canta rodando
em dança concêntrica
Abro lentamente
com paciência demente
uma a uma
mil camadas
Quanto mais profundas
mais inexistentes
Nem quentes
nem frias
Na última
salta súbito
do dentro
do núcleo
um fluxo de sono
magnético
absoluto
Envolve rápido
zás
minha mente
engole minha alma
no casulo
E leio
escrito em pergaminho
saído da espuma
da gosma
do canto gnomo
a palavra bailarina:
Samsara
Assinar:
Postagens (Atom)