quarta-feira, 4 de maio de 2011

O banho em espiral

No hemisfério sul de nossa terra
existe um tipo relativamente
comum de pássaro migratório
Eles se reproduzem
com tanta rapidez
que apenas um truque
da natureza
nos livra de um pesadelo
A cada ano, em bando
eles escurecem o céu
da África Ocidental
onde se reúnem
para seu passeio
sobre o Atlântico
Suspeita-se
que no meio
do oceano
exatamente ali,
onde segundo
os geólogos
há milhões de anos
a África se separou
da América do Sul,
esses pássaros
começam a girar
em círculos
Procuram sua terra
onde ela
não existe mais
Seu instinto
sobrecarregado
por milhões de anos
os conduz
à morte
Apenas os insensíveis
alcançam o continente

(Poema de Rebecca Horn,
artista plástica alemã.
Tradução:
Leila Danziger)










































domingo, 1 de agosto de 2010

ÚLTIMA GARÇA

alva asa de lua
deslisa a garça
no azul
sobre o mar

de norte a sul
tudo é azul

tudo

exceto a suave graça
da solitária garça
a navegar o silêncio
de sua total brancura

aquela brancura das virgens
docemente impuras

aquela brancura das flores
da espuma
da areia
dos sonhos

aquela alvura do primeiro dente
do olhar vazio
redondo
que nos contempla o demente

sempre alva e levemente
eis que a garça voltei no ar
um acrobático 8
e
bailarina
pousa sobre uma pedra
sua alada pluma

imóvel, um gato dorme ao sol
serenos estão as águas
as folhas das amendoeiras
os ventos

parados estão
os relógios
pois não há mais pressa
nada se move
tudo cessa

ao longe alguém cantarola:
"...take me to the moon
and let me play among the stars..."

[e foi assim que morri]












segunda-feira, 7 de junho de 2010

VOLTEI?

O inverno se aproxima
volto

envolto em fiapos de nuvens

aquelas nuvens invisíveis
que os andarilhos carregam
na alma

Volto
mas será um dia
parti
ou apenas adormeci?

domingo, 27 de setembro de 2009

BAILARINO D'AREIA

A vida nos une e nos separa
Num belo e fatal
Frio
Movimento de ondas
De mar

Como, digam-me
Como sorrir
E chorar
Alternadamente?

No rítimo vaivém
De águas ora doces
Outras vezes salgadas

Será o náufrago
Isolado numa ilha
Abençoado pela sorte
De viver para sempre
Além da morte
Sem encontros
Nem desencontros?

Inseparável de sua sombra
Leal companheira
E vice-versa
Como a estrela
É sua própria luz

Dias de sol
Noites de luar
O embalo da música
Soprada pelo mar

Orquestra a dança
Do bailarino d'areia

O corpo
Abraçado
Em seu próprio manto

Sem nenhum encontro
Mas distante
Muito distante
No longe oceânico
De qualquer desencontro












domingo, 6 de setembro de 2009

VELEIRO ALADO

Em veleiro alado
a pairar suavemente
navegaremos pelo espaço
pelos mistérios do tempo

Apenas nós dois
assim
ao vento

Nas lunetas
nossos corpos suspensos
no ar

A paixão
o abraço
beijos
ao luar

Flutuaremos
entre cores
de aurora boreal

No veleiro alado
lá em cima
[de onde chovem
todos os sonhos]
nos amaremos
em movimento lânguido
lento

Voaremos alto
acima dos fins

E ao som difuso
de clarineta
nos ofereceremos
na palma das mãos
faiscantes lantejoulas

Apenas nós dois
assim
ao vento


















sábado, 29 de agosto de 2009

PASSEIO

E vinha caminhando ao sol
[era verão
mas havia neve
em seus ombros]
sobre sua sombra
no centro de sua alma
solto balão rente ao chão

E notou o sorriso
dos cães
a pressa das pessoas
rumo a lugares distantes
muito distantes
onde não havia cães sorrindo
nem ninho de pássaros
ocultos
em folhagem de milagres

E no céu o sol e a lua
salpicados de estrelas
brilhavam juntos
pois era noite
mas também era dia

E sobre um muro
revestido de tempo e musgo
um gato lhe disse
em rima de silêncios
uma poesia
que somente ele entenderia

E suas roupas foram se desfiando
esvoaçando fiapos
sumiam
sumiam
sumiam

E o ressoar de seus passos
transformaram-se em melodia
seu corpo diluia-se
em duo
cello e violino

E seu coração dividiu-se
em duas gotas sobre a face
molhando o sorriso esculpido
em sinfônica alegria

E subiu a escadaria
de nuvens e pássaros
cães e gatos em procissão
sumiu
sumiu
sumiu
no areal luminoso
[era verão
mas havia neve
em seus ombros]












sexta-feira, 31 de julho de 2009

A ESFERA (VISÕES)

No gume agudo
do som violino
me solto mudo

Anestesiado

Sou abelha atômica
asas vulcânicas
vertiginoso vôo
invertido

Rumo a um poço
profundo
sem fundo
[do lado oposto
ao fim do mundo]

Vejo na mata
uma clareira
circular

Exatamente
no centro
do círculo
uma esfera

Espera

Feita de mil
camadas
sobrepostas
em misteriosa
simetria

Perfeita maestria

Lá
no centro
do círculo
somente
em eterno momento
um certo
silêncio

Aquele silêncio
da lonjura
do deserto
da loucura

Ao redor
da esfera
apenas o peso
de sua própria espera

Mas não só

Em frenética
coreografia
dança um gnomo
prateado

"O inferno é gelado
gelado e eterno
é o inferno"
canta rodando
em dança concêntrica

Abro lentamente
com paciência demente
uma a uma
mil camadas

Quanto mais profundas
mais inexistentes

Nem quentes
nem frias

Na última
salta súbito
do dentro
do núcleo
um fluxo de sono
magnético
absoluto

Envolve rápido
zás
minha mente
engole minha alma
no casulo

E leio
escrito em pergaminho
saído da espuma
da gosma
do canto gnomo
a palavra bailarina:
Samsara